A necessidade de reconstrução das conexões de internet no Rio Grande do Sul
Por Rodrigo Schuch, presidente da Associação NEO
Nas últimas semanas, imagens do estado que tanto visito e admiro não saem da minha mente, é como um filme passando e repetindo cenas que jamais poderia imaginar um dia ver no Rio Grande do Sul. Sei que não sou o único, mais um brasileiro perplexo diante da força das águas destruindo lares, empresas, cidades e sim, sonhos de tantas pessoas.
Muitos são os impactos que ainda temos sequer dimensão, mas dado a natureza da minha profissão, penso repetidamente nos empreendedores de telecomunicações que levam a maior parte dos municípios atingidos a terem conexão via banda larga fixa, atendendo cerca de 91% em municípios de até 50 mil habitantes daquele estado*. Fizeram isto graças a coragem e empreendedorismo de empresários que acreditam que não importando tamanho da cidade, a conexão é algo fundamental, que investiram em tecnologia e infraestrutura, gerando empregos e desenvolvimento socioeconômico nessas regiões.
E se você reside em um grande centro e tem pouco envolvimento com este setor, talvez não saiba exatamente a relevância destas empresas, as chamadas PPP – Prestadoras de Pequeno Porte que, em grande parte do território brasileiro, em especial em pequenos municípios, são principal forma de acesso à banda larga fixa. São empresas com atuação regional, com sede nesses municípios, que existem principalmente pela lacuna deixada pelas grandes operadoras em investir nessas regiões, dado à complexidade e custos frente ao retorno esperado. E, agora, a maior parte deles que atua nas cidades atingidas, se vê com prejuízos que em alguns casos podem ser quase totais, perdendo suas estruturas de redes, equipamentos e, portanto, com impactos sobre a população, às empresas locais e seus empregados e à economia do estado e municípios.
Para dar uma ideia da dimensão, são 447** municípios gaúchos afetados pelo desastre, 94* empresas prestadoras de serviços de internet impactadas e estima-se que pelo menos 220 mil acessos* tenham sido seriamente comprometidos com a situação dramática, gerando um número incalculável de pessoas e serviços desconectados. Esses acessos são de residências, comércios, escritórios, escolas, hospitais e demais possibilidades.
É certo que o momento requer atenção em diversas frentes, saúde, cuidados básicos, reconstrução de lares entre tantas outras demandas urgentes, mas com olhar sobre o que a conexão nos proporciona, estamos falando de pessoas com acesso bastante restrito a informações, educação, segurança e suporte à economia local.
Ocorre que, estimativas preliminares demonstram que para refazer os acessos comprometidos, ou seja, reconectar essas ligações, as PPPs devam gastar milhões de reais. Um valor que essas empresas não têm em caixa e teriam dificuldades em ter acesso a financiamentos competitivos e que caibam nas suas estreitas margens de lucro.
Como presidente executivo de uma Associação representativa do setor, como profissional que acredita e sabe do poder transformador das telecomunicações nas comunidades, me sinto no papel de clamar atenção governamental para encontrar alternativas viáveis para financiar essa reconstrução estrutural das PPPs, garantindo sua continuidade.
O acesso à internet deixou de ser supérfluo há muitos anos, tanto que, já foi aprovado pelo Senado em dois turnos e pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, aguardando para ser votada em plenário, a PEC 47/2021 que insere na Constituição Brasileira a “inclusão digital na lista de garantias fundamentais, que englobam entre outros os direitos à vida, à igualdade, à segurança, à propriedade, à liberdade de expressão e de crença, ao trabalho, a ir e vir e a um julgamento justo”.
Foi o bom acesso à internet, fornecido especialmente pelas PPPs, que colocou milhares de pequenos municípios em pé de igualdade com os grandes centros urbanos em termos de oportunidade de formação, educação, trabalho e qualidade de vida.
Nesse momento, todo apoio ao povo gaúcho e às autoridades públicas do estado e seus municípios é pouco, é o momento de se compartilhar os recursos nacionais para trazer dignidade e esperança à vida dessas pessoas.
Encerro expressando meu absoluto pesar pelas perdas materiais e imateriais no Rio Grande do Sul, mas com a certeza íntima de que esse forte estado, sustentado pelas mãos e mentes de seu povo aguerrido, e apoiado pelos poderes e instituição nacionais e dos demais estados, vai se reerguer e deixar lições ao mundo de como sair dos escombros para a prosperidade.
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